View from the exhibition We Can Only Be Happy / SOMA Galeria, Curitiba (BR) / September 16 - November 1, 2022 Photo: Kraw Penas.
Nas Feridas que Eu Alcanço, 2022
Realizada pela primeira vez em espaço público na Praça Marechal Alberto Ferreira de Abreu, Curitiba, Brasil, em 27 de julho de 2022.
Instalação multimídia derivada da performance, edição limitada de 5 + 1 P.A.:
10 fotografias (foto-performance) impressas em pigmento mineral sobre papel de algodão 100%, 308 g/m² ou 310 g/m², cada uma medindo 11,5 × 19,5 cm;
1 vídeo monocanal, cor, 3’57’’.
Curitiba, Brasil, 2022.
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A ferida expõe a vulnerabilidade do corpo. Ela marca o ponto em que a matéria viva se rompe, revelando simultaneamente fragilidade e potência: a capacidade de sofrer o impacto do mundo e de iniciar processos de reparação. Nesse sentido, a ferida é trauma, mas também passagem — uma inscrição do tempo e da experiência na superfície do corpo.
Nas Feridas que Eu Alcanço foi concebida durante o retorno da artista ao Brasil após uma residência artística em Veneza e estudos em Humanidades Ambientais na Ca’ Foscari. O deslocamento entre contextos culturais e afetivos — marcado pela experiência do estrangeiro, por fricções geracionais e metodológicas e pela sensação de ruptura de continuidade — constitui o pano de fundo da obra. Nesse momento, Analize Nicolini confronta a necessidade de reorganizar sua própria existência e reafirmar sua posição no campo da arte. O trabalho integra uma investigação mais ampla na qual corpo, espaço público e relações entre indivíduos, espécies e sistemas sociais operam como dispositivos para refletir sobre vulnerabilidade, cuidado e responsabilidade coletiva.
Na ação performativa, a artista apresenta-se como um ser vivo não identificado — uma figura que pode representar simultaneamente humano, animal ou entidade simbólica. Vestindo uma indumentária vermelha composta por catsuit, facekini (máscara facial) e capa, confeccionada em poliamida biodegradável, seu corpo é transformado em um organismo ampliado. O traje cobre integralmente o corpo, deixando visíveis apenas orifícios e feridas. A superfície vermelha remete ao sangue e à pele, enquanto os orifícios indicam zonas fundamentais de comunicação entre interior e exterior — respiração, ingestão, excreção e expressão — compartilhadas por praticamente todos os seres vivos.
As feridas indicam rupturas. Elas remetem tanto a traumas individuais quanto coletivos — marcas que atravessam indivíduos, espécies e ecossistemas. O corpo apresentado torna-se, assim, um território simbólico onde se cruzam experiências pessoais, histórias sociais e processos planetários.
A ação central da performance consiste em um gesto simples e primitivo: lamber as próprias feridas em praça pública, como um cachorro. Observado em diversos animais como forma de aliviar a dor e estimular a cicatrização, esse gesto é apropriado pela artista como imagem simbólica de cuidado, regeneração e autoescuta, ao mesmo tempo em que expõe a vulnerabilidade do corpo diante do olhar coletivo.
A performance foi realizada pela primeira vez em espaço público na Praça Marechal Alberto Ferreira de Abreu, em frente ao Hospital Geral de Curitiba — instituição administrada pelo Exército Brasileiro — em 27 de julho de 2022. A presença da artista vestida de vermelho interrompe momentaneamente a normalidade do espaço e introduz uma imagem inesperada no cotidiano, diretamente relacionada à experiência compartilhada da vulnerabilidade do corpo e da busca por cura.
Durante a ação, a artista repete em voz alta a frase “No final, todos nos lamberemos.” O enunciado introduz uma dimensão coletiva no gesto aparentemente individual da performance, sugerindo que existem feridas que não podemos alcançar sozinhos e que certas formas de cura exigem práticas compartilhadas de cuidado.
Nesse sentido, o trabalho opera simultaneamente como alerta e convite: alerta para a fragilidade que atravessa todos os corpos vivos e convite para uma ética de cuidado consigo, com o outro e com o mundo.
No interior dessa operação permanece uma pergunta que atravessa a pesquisa da artista: pode a arte transformar comportamentos?
Nas Feridas que Eu Alcanço não oferece uma resposta conclusiva, mas cria uma imagem capaz de interromper momentaneamente a rotina e abrir um espaço de reflexão no qual essa pergunta continua a reverberar.
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