A série fotográfica Anular — Transições Luminares investiga estados liminares entre visibilidade e apagamento, presença e suspensão, registro e transfiguração. Composta pelas obras Anular I, II e III, a série desloca o fenômeno astronômico do campo da documentação para o território da experiência sensível, onde luz, cor e percepção tornam-se matéria crítica.
As imagens foram realizadas a partir da observação direta do céu e posteriormente submetidas a um processo rigoroso de elaboração cromática. Por meio da manipulação de tonalidade, temperatura, vibração e saturação, Analize Nicolini constrói três atmosferas visuais distintas, nas quais a paisagem deixa de operar como dado natural e passa a funcionar como campo simbólico. A cor não atua como efeito estético, mas como linguagem: um dispositivo capaz de tensionar a relação entre o real observado e o real produzido.
Em cada fotografia, a Lua ocupa o eixo superior da composição, instaurando uma presença silenciosa e gravitacional, enquanto a geometria urbana no plano inferior introduz a dimensão construída do mundo. Essa relação estabelece um diálogo entre o cósmico e o cotidiano, entre o infinito e o transitório, entre forças que excedem o corpo e estruturas que o organizam. O horizonte rarefeito e a economia formal reforçam uma atmosfera de suspensão, convidando à contemplação lenta e à introspecção.
O termo anular não se refere aqui apenas a um evento astronômico, mas a um gesto conceitual: anular como suspender, como interromper temporariamente fluxos habituais de percepção, como criar um intervalo no qual o olhar é reconfigurado. A série opera nesse intervalo, produzindo imagens que não se oferecem como espetáculo, mas como campo de atenção.
Em Anular — Transições Luminares, Nicolini articula técnica fotográfica, elaboração cromática e reflexão existencial em um mesmo plano de operação. A série afirma a fotografia como prática de tradução sensível do imensurável, capaz de converter fenômenos cósmicos em experiências subjetivas e políticas do tempo, da impermanência e da escala.
Mais do que registrar o céu, essas imagens interrogam o lugar do corpo no universo, propondo uma poética da suspensão em que ver é também aprender a permanecer diante do indizível.
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Anular I, 2023pigmento mineral em papel 100% algodão de 308 ou 310g/m²
40 X 60 cm | 10 + 2 P.A.
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Anular II, 2023pigmento mineral em papel 100% algodão de 308 ou 310g/m²
40 X 60 cm | 10 + 2 P.A.
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Anular III, 2023pigmento mineral em papel 100% algodão de 308 ou 310g/m²
40 X 60 cm | 10 + 2 P.A.
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