Em um mundo perfeito, não haveria guerra, miséria, maldade, atrocidades, nem a repetição exaustiva de tudo o que degrada a vida nesta Terra e ao longo da história. Se eu tivesse uma varinha de condão no exato instante em que entendesse tudo isso, seria imediato: paraíso na Terra, paz, bondade, trabalho, dignidade, amparo.
Mas não existe mundo perfeito. Existe este. E é neste que vivemos, pensamos, adoecemos, criamos, insistimos.
Talvez por isso mesmo a arte e as instituições que ainda tentam operar com alguma integridade precisem assumir uma tarefa difícil: sustentar o possível sem se esconder em utopias confortáveis.
Essa postura nasce de um paradoxo estrutural e histórico. Falamos de liberdade em meio à violência. Falamos de criação em meio ao colapso. Falamos de encontro em um mundo organizado por guerra, exploração, apagamento e desigualdade. Falamos de arte enquanto, em tantos lugares, o que está em jogo ainda é a própria sobrevivência.
E, no entanto, mesmo assim, ainda assim, sigo pensando que a arte pode ser um espaço de liberdade, de sonho, de esforço, de elaboração e de presença.
Quando me coloco imaginariamente no lugar de um artista de um povo indígena, de um artista de um país em guerra, de alguém atravessado por realidades extremas, chocantes, agonizantes, não penso em pureza, nem em redenção fácil. Penso em insistência. Penso no gesto de fazer apesar de tudo. Penso na arte como uma das poucas formas de manter acesa uma possibilidade de aparecimento quando quase tudo ao redor trabalha para reduzir, silenciar, esmagar ou destruir.
Eu mudo de ideia. Eu tenho medo. Eu não falo de um lugar puro, estável ou inocente. E talvez seja justamente por isso que eu continue querendo que a arte — e também as bienais, a Documenta, os encontros, os debates e as conversas que ela torna possíveis — seja levada a sério como espaço de encontro, de visibilidade e de transmissão.
Não porque a arte vá salvar o mundo. Isso seria pouco rigoroso, e talvez até irresponsável dizer. A arte não substitui comida, cessar-fogo, justiça, política pública, reparação, redistribuição, abrigo, cuidado. Mas a arte pode produzir algo que não é pequeno: um campo em que experiências, formas, memórias, conflitos e imaginários distintos possam aparecer uns diante dos outros. E aparecer não é pouco. Ser visto não é pouco. Não ser apagado imediatamente não é pouco.
Gostaria que as grandes exposições internacionais, as bienais, as documentas, os espaços de debate e de circulação fossem também isso: não apenas vitrine, chancela, mercado, turismo cultural, capital simbólico ou diplomacia macia, mas suporte real à arte, aos artistas e à possibilidade de que o mundo veja o que está sendo produzido em contextos muito diferentes entre si. Que fossem, de fato, lugares em que os países pudessem mostrar o que têm de arte viva, pulsante, urgente, contraditória, potente.
Não falo de um mapa pacificado do mundo. Não falo de harmonia falsa. Não falo de uma arte domesticada para parecer universalmente aceitável. Falo justamente do contrário: de um espaço onde diferenças reais possam aparecer sem serem imediatamente neutralizadas; onde conflitos possam ser vistos sem serem transformados em espetáculo vazio; onde a complexidade do mundo encontre forma, corpo, imagem, linguagem, presença.
A paz, para mim, não está apenas em acordos abstratos ou em discursos corretos. A paz também se ensaia no encontro. Na escuta. Na possibilidade de que algo de um mundo chegue ao outro sem ser primeiro destruído. Na possibilidade de ver e ser visto. Na recusa do apagamento. No reconhecimento de que a experiência humana e não humana neste planeta é muito maior, mais desigual, mais violenta e mais complexa do que as narrativas prontas conseguem suportar.
Talvez a arte seja um dos poucos campos em que ainda podemos reunir imaginação, forma, crítica, memória, dissenso, dor, desejo e pensamento sem precisar reduzir tudo a uma única função. Talvez por isso eu ainda queira defendê-la. Talvez por isso eu ainda queira que ela circule, apareça, seja vista, seja levada a sério. Talvez por isso eu ainda queira que uma bienal possa ser mais do que um evento: possa ser também uma transmissão planetária, um campo de aparecimento, um suporte, uma abertura.
Acho, sim, que a arte pode ser esse espaço raro que quase não existe em nenhum outro lugar: um espaço onde ainda se pode mostrar, ver, elaborar, tensionar e partilhar. E acho, também, que por esse caminho — insuficiente, parcial, frágil, mas real — a arte pode ser mais uma via em direção à paz.