Este projeto não é bastidor. É cena. Não é making of. É obra.

Insistir em Existir: Protocolos de um Ateliê Público foi uma exposição individual de Analize Nicolini, com texto crítico de Kamilla Nunes, apresentada na SOMA – People & Culture, em Curitiba, em 2026. A exposição integrou a ocupação artística e curatorial conduzida pela artista na instituição desde junho de 2025, mas se constituiu como um recorte próprio: uma exposição-processo na qual o ateliê foi tornado público como espaço de produção, pensamento, arquivo, circulação, negociação e presença.

 

A mostra recusou a separação entre bastidor e cena, processo e produto, economia e poética. Materiais em trânsito, obras concluídas, experimentações, registros, restos, objetos de venda, protocolos, documentos e decisões de montagem apareceram como camadas de uma mesma operação: tornar visíveis as condições materiais, simbólicas, afetivas e institucionais que sustentam a existência de uma artista-curadora.

 

O eixo conceitual da exposição partiu da insistência como gesto ético, estético e político. Insistir em existir, aqui, não significou afirmar uma permanência abstrata, mas expor as condições concretas de sobrevivência, trabalho, deslocamento, precariedade, cuidado, reconstrução e continuidade. O ateliê deixou de ser espaço privado e passou a operar como instituição mínima: um lugar onde obra, vida, pesquisa, mercado, afeto, arquivo e encontro público se atravessam.

 

O núcleo central da exposição foi o corpo completo de Minha História Deixa Que Eu Conto, obra iniciada em 2024 e desenvolvida em quatro atos. Ao longo desses atos, a frase-título desloca-se do espelho para o espaço, do espaço para a voz e da voz para o corpo escultórico. A obra articula autorrepresentação, soberania narrativa, corpo dissidente, acessibilidade, regimes de visibilidade e disputa pelo direito de narrar a própria história.

 

Em Minha História Deixa Que Eu Conto — Ato I, 2024, a frase é aplicada em vinil adesivo sobre espelho. A superfície reflete quem está diante dela, enquanto o enunciado intervém nessa imagem. A operação central consiste em afirmar a autoria da própria narrativa em contextos nos quais histórias são frequentemente interpretadas, corrigidas ou apropriadas por outros. O espelho deixa de ser apenas reflexo físico e evidencia que a identidade é produzida no encontro entre imagem e olhar social.

 

Em Minha História Deixa Que Eu Conto — Ato II, 2026, a frase expande-se para uma instalação suspensa composta por 53 placas seriadas, dispostas em alturas distintas. A obra interrompe a linha média que organiza silenciosamente o olhar expositivo. Não há eixo central, nem medida neutra. As alturas partem de variações reais de estatura e linha de visão, convertendo diferença em estrutura. A autoria deixa de ser apenas enunciado e torna-se arquitetura.

 

Em Minha História Deixa Que Eu Conto — Ato III, 2026–, a obra ocupa a voz por meio de uma vídeo-performance baseada na leitura pública dos 37 Princípios de Yogyakarta, apresentada em monitor vertical com espelho aplicado e áudio. A frase atravessa o campo jurídico e normativo, deslocando a autoria do plano individual para o regime dos direitos. O que era afirmação autobiográfica torna-se enunciação pública: narrar a própria história implica atravessar a lei.

 

Em Minha História Deixa Que Eu Conto — Ato IV, 2026, a obra retorna ao corpo como volume, superfície e inscrição. O molde do corpo da artista é recoberto com lambe-lambe composto por imagens sobrepostas: dinheiro, classificação fenotípica e genética, alfabeto, números e referência visual ao braile. A escultura torna-se superfície de inscrição de regimes de valor, classificação e linguagem. O corpo não aparece como evidência transparente, mas como campo de sobreinscrição, opacidade, legibilidade disputada e soberania narrativa.

 

Ao reunir os quatro atos de Minha História Deixa Que Eu Conto, a exposição apresentou uma obra em processo de expansão formal e conceitual. O que começa como frase diante do reflexo torna-se estrutura espacial, leitura pública, dispositivo jurídico, imagem em movimento e escultura corporal. A obra afirma que contar a própria história não é apenas falar de si: é disputar as condições materiais, visuais, institucionais e políticas sob as quais uma existência pode aparecer.

 

A exposição também apresentou obras e processos que ampliaram esse campo de insistência: Insistir em Existir, 2026, instalação composta por coluna modular em cimento, artefatos menores em cimento com luvas incorporadas, saco de pancada e tatame suspenso; Aqui Todos Nos Lamberemos, 2023; Aqui Nos Resta Ser Feliz, 2022; Nas Feridas Que Eu Alcanço, 2022; If You Need Art to Act, 2024/2026; Pequenos Grandes Traumas, 2025; Anular I, II e III, 2023; Luzes do Leblon, 2019; Companhia I e Companhia II, 2024; e Rizoma (ou Gênesis), 2016. Esses trabalhos articularam ferida, cuidado, resíduo, impacto, trabalho, memória, paisagem, cor, gesto e sobrevivência como dimensões inseparáveis da prática da artista.

 

Durante o período da exposição, Insistir em Existir: Protocolos de um Ateliê Público recebeu um programa público com Jonathas de Andrade, apresentado no contexto da ocupação artística e curatorial conduzida por Analize Nicolini na SOMA – People & Culture. A programação incluiu a exibição contínua, ao longo de seis horas, do filme Jangadeiros e Canoeiros, de Jonathas de Andrade, e desdobrou-se em conversa pública em torno de trabalho, território, saberes populares, permanência e arte contemporânea sul-americana.

 

A presença de Jangadeiros e Canoeiros na exposição não operou como ilustração temática, mas como adensamento do campo curatorial da mostra. Em diálogo com uma exposição centrada em permanência, processo, trabalho, corpo, autoria e sobrevivência, o filme ampliou a discussão para formas coletivas de existência ligadas ao mar, ao Rio São Francisco, à transmissão de saberes, à resistência territorial, à cultura popular e à imaginação sensível.

 

Insistir em Existir: Protocolos de um Ateliê Público consolidou a prática de Analize Nicolini como obra expandida, processo contínuo e plataforma institucional. A exposição propôs o ateliê público como espaço de convivência crítica, memória ativa, economia visível e transformação permanente.