Uma estrutura de pesquisa dedicada a práticas baseadas em lentes, mídias digitais e integradas e tecnologias na arte sul-americana.

PROJETO E ESTRUTURA ORIGINAL

Concebi #CONTENT+ no âmbito da BraSA.Art em novembro de 2019, antes da pandemia de COVID-19. Estruturei o projeto como a primeira edição de uma plataforma internacional seriada, e não como uma exposição coletiva isolada.

Sua estrutura original reunia uma convocatória internacional planejada, exposições coletivas no Rio de Janeiro e em Los Angeles, premiações individuais, catálogo digital, atividades educativas, difusão on-line e acesso público gratuito.

A primeira edição previa selecionar até 50 artistas visuais: 30 do Brasil e dos demais países da América do Sul, 10 do Canadá e 10 da Índia. Uma minuta completa da convocatória foi preparada como mecanismo público de seleção, mas nunca chegou a ser publicada: as inscrições não foram abertas e nenhuma seleção de artistas foi realizada. A convocatória era um componente de uma arquitetura curatorial mais ampla e não definia integralmente o sentido do projeto.

 

PROPOSIÇÃO CURATORIAL E GEOPOLÍTICA

Parti de uma questão central: como a arte brasileira poderia adquirir maior visibilidade internacional não como representação nacional isolada, mas por meio da construção de um campo sul-americano de diálogo capaz de produzir força continental?

Concebi o Brasil como ponto de articulação e enunciação dentro da América do Sul. Por meio do projeto, busquei posicionar a arte brasileira a partir de suas relações com o continente, participar dos debates culturais e políticos da América do Sul e do Sul Global e estender esse diálogo para além da região.

Dentro dessa estrutura, o Canadá introduzia um eixo norte-americano e interamericano, enquanto a Índia estabelecia uma relação intercontinental com outro contexto complexo e internamente diverso do Sul Global. Los Angeles foi concebida como ponto de encontro entre essas diferentes posições geográficas, políticas e tecnológicas.

O projeto operava, portanto, em três escalas interligadas: brasileira, sul-americana e intercontinental. Sua proposta não consistia simplesmente em reunir representações de diferentes territórios, mas em colocá-los em relação sem apagar as assimetrias e as condições distintas das quais emergiam suas práticas artísticas.

Como concebi #CONTENT+ como uma estrutura seriada, sua primeira configuração geográfica não pretendia esgotar o projeto. Outras edições poderiam estabelecer relações com diferentes países ou regiões, preservando seu método fundamental: partir da pesquisa brasileira e sul-americana para construir, a partir dessa posição, um diálogo internacional.

 

DE VENEZA A LOS ANGELES

A pesquisa que originou #CONTENT+ nasceu das investigações que desenvolvi por meio da BraSA.Art enquanto planejava uma possível galeria em Veneza. Embora a galeria não tenha sido concretizada, dei continuidade à pesquisa desenvolvida em torno de artistas brasileiros e sul-americanos.

Quando conferi a essa pesquisa a estrutura expositiva de #CONTENT+, redirecionei-a de sua genealogia veneziana para as apresentações planejadas no Rio de Janeiro e em Los Angeles e ampliei seu alcance por meio da inclusão do Canadá e da Índia. Não se tratou de uma mudança de assunto, mas de uma migração e expansão da pesquisa original.

Veneza integra, portanto, a origem e a trajetória intelectual do projeto, mas não foi uma das cidades expositivas propostas no projeto aprovado.

 

MÍDIAS, TECNOLOGIA E HORIZONTE INSTITUCIONAL

Delimitei o campo curatorial de #CONTENT+ em torno de práticas baseadas em lentes, mídias digitais e integradas e tecnologias. Esse campo abrangia investigações artísticas envolvendo fotografia, imagens em movimento, vídeo, ambientes digitais, sistemas, dispositivos, design, engenharia, sistemas construídos ou customizados, arquitetura, interatividade e diferentes formas de integração tecnológica à prática artística.

Não abordei a tecnologia apenas como novidade técnica ou espetáculo. Investiguei como imagens, mídias, sistemas e dispositivos participam da produção e da distribuição da visibilidade cultural e como artistas atuando sob diferentes condições políticas, econômicas e tecnológicas se apropriam das ferramentas disponíveis e as transformam.

Para organizar essa pesquisa sobre mídias, recorri parcialmente aos campos de estudo e de prática artística apresentados pelo California Institute of the Arts—CalArts. A CalArts funcionava como referência pedagógica e conceitual, e não como parceira confirmada do projeto.

Uma das minhas intenções era apresentar em Los Angeles o que artistas do Brasil e da América do Sul estavam produzindo com essas mídias e tecnologias, colocando suas práticas em diálogo com uma cidade fortemente associada à formação artística, à experimentação, à cultura da imagem em movimento e à produção tecnológica.

Também desenvolvi o projeto em relação à escala, aos programas e aos perfis institucionais do MAC Niterói, Centro Cultural Banco do Brasil, Museu do Amanhã, Museu de Arte do Rio e MIS-RJ, na região do Rio de Janeiro, e do Hammer Museum, Museum of Contemporary Art Los Angeles, Institute of Contemporary Art Los Angeles e Fowler Museum, em Los Angeles.

Essas instituições constituíam o horizonte institucional pesquisado e prospectivo do projeto. Não eram sedes, patrocinadoras ou parceiras institucionais confirmadas.

 

A HASHTAG E O SINAL DE ADIÇÃO

Escolhi o título em relação às condições digitais do momento em que concebi o projeto. Em 2019, a hashtag ainda ocupava uma posição central na cultura das plataformas como mecanismo de endereçamento público, indexação, busca, agregação coletiva, circulação e participação.

Em #CONTENT+, a hashtag não era apenas um recurso gráfico ou promocional. Eu a empregava para conectar o projeto às maneiras pelas quais imagens, informações, comunidades e convocatórias públicas eram organizadas e colocadas em circulação naquele momento.

O sinal de adição introduzia as ideias de acréscimo, abertura e serialidade. Ele permitia que a estrutura permanecesse expansível por meio de mais artistas, países, mídias, relações e edições.

Preservar o título também significa preservar as condições históricas e tecnológicas da concepção do projeto. Sua especificidade temporal permanece como parte de seu significado.

 

APROVAÇÃO E NÃO REALIZAÇÃO

#CONTENT+ foi aprovado em 2020 pela Lei Federal de Incentivo à Cultura—Lei Rouanet—PRONAC 200521, Processo 01400.000488/2020-87, Artigo 18, Mecenato, com orçamento aprovado de R$ 1.366.240,00.

De acordo com o enquadramento aplicável naquele momento, sua classificação na área de artes visuais e no Artigo 18 permitia que os aportes elegíveis de patrocínio fossem integralmente deduzidos do Imposto de Renda federal, dentro dos limites legais aplicáveis a patrocinadores individuais e empresariais.

Contratei assistência profissional para a preparação técnica e a submissão da proposta por meio do SALIC. Concebi e desenvolvi, no âmbito da BraSA.Art, a proposição geográfica, a arquitetura curatorial, a direção de pesquisa e a estrutura dedicada às mídias do projeto.

O projeto não obteve o patrocínio necessário para entrar em produção. Consequentemente, as exposições, a seleção de artistas, as premiações e o programa público não foram realizados.

 

LEGADO DE PESQUISA

A não realização das exposições não apagou a pesquisa já produzida. Durante e depois da proposta original, continuei investindo na pesquisa país por país na América do Sul. Contratei pesquisas complementares e desenvolvi planilhas, mapeamentos de artistas, referências institucionais, propostas e documentos de trabalho.

A pesquisa realizada sobre o Suriname tornou-se o modelo por meio do qual estabeleci um método que pudesse ser replicado e adaptado aos demais países sul-americanos. A importância desse trabalho não reside apenas nos artistas identificados, mas também nos procedimentos, critérios, fontes e formas de organização criados para permitir a continuidade da investigação.

Esse conjunto constitui um dos principais legados de #CONTENT+: uma infraestrutura histórica e metodológica para a pesquisa sobre arte, mídias e tecnologia na América do Sul. Não o apresento como uma base de dados definitiva ou continuamente atualizada, mas como um corpus que pode ser revisto, verificado, ampliado e criticamente reavaliado.

Atualmente, descrevo esse campo de maneira mais abrangente como práticas de arte contemporânea, mídias e tecnologia na América do Sul. Essa formulação não substitui as categorias originais do projeto—práticas baseadas em lentes, mídias digitais e integradas e tecnologias—, mas oferece um enquadramento contemporâneo por meio do qual elas podem ser compreendidas e futuramente reavaliadas.

 

SITUAÇÃO ATUAL E POSSIBILIDADES FUTURAS

Em 2026, #CONTENT+ não é uma convocatória ativa, uma exposição confirmada ou um programa em produção. Nesta página, apresento o que o projeto propôs, como foi estruturado, a pesquisa que gerou e o que esse conjunto de trabalho ainda poderá sustentar.

O arquivo e a metodologia existentes poderão contribuir para um mapeamento sul-americano atualizado, uma publicação, um arquivo digital, um seminário ou programa público, uma colaboração institucional de pesquisa ou uma futura edição expositiva. Qualquer desenvolvimento dessa natureza constituirá uma nova etapa e exigirá pesquisa atualizada, novas decisões curatoriais, relações institucionais, financiamento e condições de produção.

Minha admissão no programa EGArt da Universidade Ca’ Foscari de Veneza, em 2026, oferece um possível contexto acadêmico futuro no qual esse arquivo poderá ser revisitado e discutido. Isso não representa uma parceria anunciada, uma reativação atual de #CONTENT+ em Veneza ou uma nova edição confirmada.

A relevância duradoura de #CONTENT+ reside na tese curatorial e na infraestrutura de pesquisa que estabeleci: posicionar a arte brasileira por meio das relações sul-americanas e investigar como artistas de todo o continente trabalham com imagens, mídias, tecnologias e sistemas de visibilidade.