Minha História Deixa Que Eu Conto — Ato II, 2026
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Minha História Deixa Que Eu Conto — Ato II expande a frase apresentada inicialmente no Ato I, deslocando-a de uma única superfície refletora para uma instalação espacial suspensa composta por 53 placas seriadas. Cada elemento apresenta o enunciado “Minha História Deixa Que Eu Conto” e é revestido em ambas as faces com vinil adesivo espelhado.
As 53 placas ocupam posições verticais distintas, com seus centros progredindo de 48 a 256 cm a partir do piso, em intervalos fixos de 4 cm. Esse intervalo corresponde à altura efetiva da própria frase. A sequência produz um campo vertical contínuo de leitura, em vez de organizar a obra em torno de uma única altura convencional do olhar.
A modulação vertical foi desenvolvida a partir de referências antropométricas documentadas, relações entre estatura e linha do olhar e diferentes posturas corporais, incluindo pessoas usuárias de cadeira de rodas. Esses parâmetros são convertidos na estrutura formal da instalação. A variação corporal, portanto, não é representada como imagem ou tema: ela participa diretamente da determinação da organização espacial da obra.
Como as placas são suspensas individualmente, admitem leve movimento e rotação. Imagem refletida, linguagem, corpo e arquitetura passam, assim, a estabelecer relações variáveis à medida que os espectadores se deslocam através e ao redor da instalação. As superfícies espelhadas não produzem uma imagem única e estável, enquanto a repetição do mesmo enunciado em primeira pessoa, distribuído por múltiplas alturas, multiplica as posições a partir das quais ele pode ser encontrado e lido.
O Ato II desloca para a organização espacial a questão da autoria narrativa introduzida no Ato I. O enunciado permanece o mesmo, mas suas condições de encontro se transformam: a leitura passa a depender de altura, posição, distância, movimento e da relação entre o corpo do espectador e a arquitetura do espaço expositivo.
A instalação questiona o uso de uma única altura padrão de visualização como medida implícita do corpo expositivo. Em vez de estabelecer uma linha de visão privilegiada, distribui o enunciado por uma sequência contínua de posições verticais. A acessibilidade opera aqui como princípio material e compositivo: não como dispositivo adicional ou compensatório, mas como parte da própria estrutura a partir da qual a obra é organizada.
Dentro de Minha História Deixa Que Eu Conto, o Ato II transforma a soberania narrativa em prática espacial. A autoridade de narrar a si já não é articulada apenas pela linguagem inscrita sobre uma superfície refletora; ela é também testada pelas condições físicas sob as quais essa linguagem pode ser encontrada, lida e ocupada no espaço.
Exposições
Insistir em Existir: Protocolos de um Ateliê Público, exposição individual, texto crítico de Kamilla Nunes, SOMA – People & Culture, Curitiba, Brasil, 2026.